“40 anos da Greve de 1985: A luta que nos deu dignidade”
- Manoel Elídio Rosa - Mané Gabeira

- 16 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 17 de set. de 2025
Por Manoel Elídio Rosa, membro do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região
A greve de 1985 foi um dos momentos mais marcantes da minha vida como bancário e militante. Quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir o burburinho da Praça da Sé lotada, sentir o frio na barriga das primeiras assembleias e o calor humano daquelas passeatas que atravessaram bairros inteiros de São Paulo.

Os Preparativos da Luta
Tudo começou meses antes. Três meses antes da greve, para ser mais preciso, quando nos reunimos em São Paulo com o presidente do nosso Sindicato, Luis Gushiken. Ele nos disse, com firmeza e esperança, que era a hora de os bancários mostrarem sua força, que precisávamos de uma greve sob a hegemonia do Partido dos Trabalhadores, que à época crescia entre os jovens trabalhadores.
Ali, percebi que não seria uma tarefa simples. Era um tempo em que não existiam celulares, internet ou redes sociais. Tudo era organizado no papel, na conversa olho no olho, na confiança. Uma semana antes da greve, tivemos uma reunião importante no Sindicato dos Químicos, na Rua Tamandaré. Pegamos aquele bolo de fichas com telefones do jurídico e, com eles, começamos a estruturar nossa rede de contatos. Cada ligação era uma centelha de mobilização.
A Assembleia da Praça da Sé
Na semana seguinte, chegou o dia da grande assembleia na Praça da Sé. Lembro como se fosse hoje: da minha agência, saímos em dez colegas para participar. A praça estava cheia, e a energia no ar era de decisão e coragem. A votação pela deflagração da greve foi um momento de emoção pura. Era como se estivéssemos virando uma página da nossa história.
Logo após a assembleia, recebemos as primeiras tarefas de organização. Eu, junto com o Marcelo Aguirre e a Rosinha, do Banco do Brasil, ficamos responsáveis por coordenar as ações na região do Jabaquara.
O Primeiro Dia de Greve
No dia seguinte, bem cedo, já estávamos de pé. Sete da manhã, lá estávamos na Praça da Árvore, organizando os colegas, colando cartazes, paralisando as agências. O objetivo era claro: impedir que as agências abrissem e reunir o maior número possível de trabalhadores. A cada agência fechada, mais bancários se juntavam a nós.
Quando o relógio marcou uma da tarde, tomamos uma decisão histórica: organizar uma passeata. Éramos entre 300 e 400 bancários. Saímos da Praça da Árvore e paramos a Avenida Jabaquara. Era impressionante ver aquela multidão de bancários tomando as ruas, mostrando à sociedade que também tínhamos voz e força.
Seguimos em marcha até Santa Cruz, depois Vila Mariana e, por fim, Ana Rosa. O percurso foi longo, e muitas companheiras, de salto alto, cansaram. Algumas entraram no metrô, mas não desistiram da luta. Aquela imagem ficou gravada em mim: mulheres firmes, mesmo exaustas, provando que a greve era de todos e todas.
A Chegada ao Sindicato
Já no final da tarde, por volta das 5h30 ou 6h, chegamos à quadra do sindicato. O sentimento coletivo era de vitória. E não apenas em São Paulo: o movimento tinha se espalhado pelo Brasil inteiro. Pela primeira vez, os bancários, considerados até então uma categoria menos mobilizada, estavam lado a lado com metalúrgicos e petroleiros como protagonistas da luta nacional.
O Legado da Greve
Essa greve não apenas arrancou conquistas concretas. Ela nos deu algo ainda mais valioso: dignidade. Até aquele momento, apenas metalúrgicos e petroleiros haviam conseguido mobilizar nacionalmente suas categorias. Nós, bancários, nos tornamos a terceira categoria a fazer isso.
A militância forjada naquela greve me acompanha até hoje. Muitos dos companheiros que caminharam comigo em 1985 permanecem meus amigos, irmãos de luta, até os dias de hoje. Criamos laços que nem o tempo conseguiu apagar.
Olho para trás com orgulho, mas também com a convicção de que essa história não deve ser apenas lembrada: deve ser vivida novamente, sempre que for necessário. Porque a lição que fica é clara: sempre vale a pena lutar. Sempre vale a pena manter a unidade.
Somos uma categoria forte. Quando nos unimos, conseguimos parar o Brasil, conseguimos colocar nossas pautas no centro do debate, conseguimos mostrar que os bancários não são invisíveis.
É por isso que, ainda hoje, carrego essa lembrança no coração. A greve de 1985 foi mais do que uma paralisação: foi o momento em que conquistamos nossa dignidade e mostramos, para nós mesmos e para o país, que sempre vale a pena lutar.

.png)



Greves Históricas, muita negociação, direitos conquistas e avanços para os Trabalhadores.