O nó da economia brasileira
- Redação

- 3 de jun. de 2025
- 3 min de leitura
Em palestra ao Coletivo Bancários na Luta, o economista Odilon Guedes traçou um panorama crítico da economia brasileira. A alta taxa de juros, o subinvestimento público e as distorções fiscais foram apontados como entraves ao desenvolvimento e à justiça social.

A conjuntura econômica brasileira foi tema da exposição realizada pelo economista Odilon Guedes durante reunião do Coletivo Bancários na Luta, em 02 de junho de 2025. Com linguagem acessível e fundamentação técnica, Guedes abordou os entraves estruturais que impedem o crescimento sustentável do país e penalizam a maioria trabalhadora.
Segundo Odilon Guedes, o Brasil possui a sexta maior população do mundo e é o quinto em extensão territorial. Dispõe de água em abundância, terras agricultáveis e um setor tecnológico crescente. Empresas de alto nível operam em cidades do interior como Marília, Araraquara e São José dos Campos, revelando uma capacidade produtiva que contrasta com a realidade econômica imposta por escolhas políticas equivocadas.
"O Brasil não é um país qualquer. Temos recursos, território e capacidade tecnológica para ser uma potência com justiça social."
Para Guedes, a reindustrialização e a adoção de um projeto nacional de desenvolvimento são fundamentais. Ele cita como exemplo iniciativas europeias, como a criação de estatais voltadas à produção de semicondutores, para destacar o papel estratégico que o Estado pode exercer na economia.
"Sem um Estado que planeje e invista, o Brasil continuará refém da especulação e da desindustrialização."
Durante a palestra, o economista criticou a atual taxa Selic, de 14,75% ao ano – a segunda mais alta do mundo em termos reais. Cada ponto percentual a mais representa um aumento de R$ 50 bilhões na dívida pública, recursos que poderiam ser destinados a habitação popular, educação e saúde.
Ele destacou que essa política monetária serve a interesses financeiros e prejudica a maioria da população:
"A cada 1% a mais na Selic, perdemos a chance de construir 500 mil casas populares."
Guedes também questionou a eficácia do aumento de juros como mecanismo de combate à inflação, especialmente quando esta decorre do aumento no preço de alimentos e medicamentos.
"Subir juros não baixa o preço do tomate."
Odilon Guedes enfatiza que essa política monetária beneficia uma minoria com aplicações financeiras, enquanto 59 milhões de brasileiros sobrevivem com até um salário mínimo. Em 2024, o pagamento de juros deve atingir R$ 1 trilhão, comprometendo o orçamento público e reduzindo os investimentos sociais.
"Quem ganha com os juros altos são os rentistas. Quem paga é o povo."
Na condição de vice-presidente do Corecon-SP, Guedes coordena a campanha "Orçamento Público com Transparência Popular", que defende uma gestão clara e acessível dos recursos públicos. Ele também chama atenção para as isenções fiscais que somam R$ 800 bilhões anuais e para a dívida ativa da União, que ultrapassa R$ 3 trilhões.
"Só com o que o governo deixa de cobrar da dívida ativa, daria para ampliar fortemente os investimentos sociais."
O economista alertou ainda para as distorções na tributação brasileira. Enquanto a herança é tributada em até 50% em países europeus, no Brasil o percentual é de apenas 4%. O imposto territorial rural (ITR) arrecada menos que o IPTU de três meses da cidade de São Paulo.
Odilon Guedes finalizou sua exposição reforçando que o Brasil tem todas as condições de promover um desenvolvimento econômico com justiça social. Para isso, defende investimentos em saúde, educação, infraestrutura e habitação, além de uma reforma no modelo econômico e fiscal.
Com base em sua experiência como economista, Guedes reafirma que o conhecimento é ferramenta essencial para transformar a realidade.
"O Brasil não é pobre. É mal gerido."
Sobre o palestrante
Odilon Guedes é economista, mestre em Economia pela PUC-SP e especialista em finanças públicas. Foi professor na FAAP e nas Faculdades Oswaldo Cruz, além de ter atuado como professor convidado na FGV-SP e na EACH/USP. Também trabalhou como consultor do Instituto Pólis de Estudos e Políticas Sociais.
É presidente do Sindicato dos Economistas do Estado de São Paulo (Sindecon-SP) e conselheiro do Conselho Federal de Economia (Cofecon). Na gestão 2024, assumiu a vice-presidência do Corecon-SP, onde coordenou a campanha "Orçamento Público com Transparência Popular".
Odilon também foi vereador em São Paulo por dois mandatos, integrando a Comissão de Finanças e Orçamento da Câmara Municipal, e exerceu o cargo de subprefeito. Publicou artigos em veículos como "Valor Econômico", "Le Monde Diplomatique Brasil" e "Folha de S. Paulo", além de ser autor do livro Orçamento Público e Cidadania (Editora Livraria da Física).

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