28ª Conferência dos Bancários aprova pauta nacional

Atualizado: 23 de jun.
Bancários na Luta/SP e a Intersindical defende aumento real de 10%, PLR linear, fim das metas e estatização do sistema financeiro com controle social em um cenário de lucros extraordinários dos bancos.
A 28ª Conferência Nacional dos Bancários e Bancárias, realizada em São Paulo entre os dias 19 e 21 de junho, reuniu representantes da categoria de todo o país para definir os rumos da Campanha Nacional Unificada 2026. O encontro aprovou a pauta de reivindicações que será levada à mesa de negociação com a Fenaban, em um ano decisivo para a renovação da Convenção Coletiva de Trabalho da categoria bancária. Segundo a Contraf-CUT, participaram da aprovação final mais de 630 delegados e delegadas, além de 140 convidados, após um processo construído em conferências estaduais, regionais, congressos por bancos e na Consulta Nacional dos Bancários, que teve 54.952 respostas.
A conferência ocorreu em um cenário de profunda transformação no sistema financeiro. Enquanto os bancos seguem acumulando lucros bilionários, a categoria enfrenta fechamento de agências, redução de postos de trabalho, avanço da terceirização, pressão por metas, reestruturações permanentes e adoecimento crescente. A pauta aprovada nacionalmente inclui 5% de aumento real, fim das metas abusivas, combate ao assédio moral, defesa do emprego bancário, manutenção da mesa única e da CCT nacional, defesa dos bancos públicos e regulação das novas tecnologias.
Para a Bancários na Luta e a Intersindical, no entanto, o momento exige ir além da pauta mínima aprovada. A corrente defende que a campanha salarial enfrente de maneira mais profunda a lógica de funcionamento dos bancos e do próprio sistema financeiro. Em sua contribuição política, a Intersindical apontou que a campanha começa sob o impacto do fechamento de agências, inclusive nos bancos públicos, o que tem gerado demissões nos bancos privados e transferências nos bancos públicos.
A avaliação é que as condições de trabalho nos bancos estão péssimas e têm provocado o adoecimento de muitos bancários e bancárias. Por isso, a corrente defende que a campanha questione a própria organização do trabalho bancário, especialmente as metas irreais e inatingíveis, utilizadas como instrumento de pressão cotidiana sobre a categoria.
Diante da enorme lucratividade do sistema financeiro, a Intersindical reivindicou na Conferência Nacional a reposição integral da inflação mais aumento real de 10%. Na PLR, a proposta defendida foi a distribuição linear de 25% do lucro líquido de cada banco entre todos os bancários e bancárias. A Central também defendeu o debate sobre a estatização do sistema financeiro com controle social, argumentando que o atual modelo trava o desenvolvimento com justiça social no país e subordina o trabalho, a produção e o orçamento público aos interesses do rentismo.
Nilza Pereira destaca resistência contra o assédio e a importância das eleições
A presença da Intersindical na Conferência também foi marcada pela participação de Nilza Pereira de Almeida, secretária-geral da Intersindical Central da Classe Trabalhadora. Em sua intervenção, Nilza ressaltou que o momento exige resistência diante do aumento do adoecimento provocado pelo assédio moral e pelas condições de trabalho impostas à classe trabalhadora.
Para Nilza, a campanha dos bancários deve estar conectada à luta geral dos trabalhadores e trabalhadoras, especialmente em um cenário de ataques aos direitos, precarização das relações de trabalho e avanço de formas de gestão que adoecem a categoria.
“Precisamos seguir avançando com resistência. As eleições deste ano serão fundamentais para garantir representantes comprometidos com a classe trabalhadora”, afirmou Nilza.
A fala dialoga diretamente com a posição da Bancários na Luta/Intersindical SP, que defende que a Campanha Nacional dos Bancários enfrente não apenas as perdas salariais, mas também a organização do trabalho bancário, as metas irreais, o assédio, o fechamento de agências e a lógica de um sistema financeiro que lucra enquanto trabalhadores adoecem.
Carlão: campanha nacional exige organização e mobilização da categoria
Carlos Pereira de Araújo, o Carlão, presidente do Sindicato dos Bancários do Estado do Espírito Santo, dirigente da Intersindical e membro do Comando Nacional dos Bancários, destacou a responsabilidade da direção nacional na construção da campanha.
Segundo Carlão, “produzir uma campanha nacional não é uma tarefa fácil”. Para ele, a tarefa exige estratégia, unidade e presença nos locais de trabalho. O dirigente defendeu que a campanha seja construída junto com os bancários e bancárias, combinando atuação nacional com mobilização concreta na base.
“Nós estamos determinados e queremos construir essa campanha junto com todos os bancários e bancárias”, afirmou.
Carlão também relacionou a campanha salarial a uma disputa mais ampla contra a lógica do sistema financeiro. Para o dirigente, a mobilização precisa chegar às agências, aos locais de trabalho, às ruas e aos espaços de organização da categoria. A campanha, segundo ele, deve ser uma batalha nacional dos bancários, mas também parte da luta da classe trabalhadora.
PLR linear: proposta busca repartir a riqueza produzida pela categoria
A defesa da PLR linear foi apresentada por Roger Medeiros, do Sindicato dos Bancários do Ceará e da Intersindical. A proposta, defendida pela Bancários na Luta/Intersindical, BPM e CTB, reivindica que 25% do lucro líquido de cada banco seja distribuído igualmente entre todos os funcionários e funcionárias.
Roger apresentou uma simulação aproximada de quanto teria sido a PLR do ano anterior caso o critério linear tivesse sido aplicado. Segundo os cálculos expostos por ele, os valores seriam de R$ 27.952,84 no Banco do Brasil, R$ 73.597,86 no Itaú, R$ 19.345,38 na Caixa Econômica Federal, R$ 38.738,76 no Bradesco e R$ 40.751,29 no Santander.
Ao apresentar os números, Roger questionou quantos trabalhadores haviam recebido menos do que esses valores nos respectivos bancos. A provocação buscou demonstrar que o modelo atual da PLR mantém desigualdades internas e não reparte de forma justa a riqueza produzida coletivamente pela categoria.
“É disso que se trata: não tratar a remuneração do capital como sagrada. Nós, classe trabalhadora, tudo produzimos e a nós tudo pertence”, afirmou.
Para a Intersindical, a PLR linear tem caráter redistributivo. A proposta parte do entendimento de que o lucro dos bancos não é resultado apenas das decisões da alta administração ou dos acionistas, mas do trabalho diário de bancários e bancárias em todo o país.
Fim das metas: pressão por resultados adoece e fragmenta a categoria
Outro eixo defendido pela Intersindical foi o fim das metas na categoria bancária. A intervenção foi feita por Fabrício Coelho, diretor do Sindicato dos Bancários do Espírito Santo e funcionário do Bradesco.
Fabrício chamou a categoria à reflexão sobre o direito de trabalhar em paz, sem a pressão permanente por resultados impostos pela lógica do lucro. Para ele, a atividade bancária deveria estar voltada ao atendimento da população e à oferta de serviços financeiros necessários ao desenvolvimento nacional, e não à imposição de metas cada vez mais agressivas.
“O quão bom seria trabalharmos em paz, oferecendo produtos e serviços bancários de acordo com a necessidade dos clientes, sem a obrigação de cumprir resultados impostos pela sanha do lucro dos banqueiros?”, questionou.
O dirigente lembrou que, há algumas décadas, a rotina bancária não era organizada em torno de metas generalizadas. “Há 40 anos não se falava de metas. Falava-se de atendimento amplo à população na rede bancária”, afirmou.
Segundo Fabrício, os últimos 40 anos foram marcados por reestruturações, demissões em massa, terceirização, avanço dos correspondentes bancários, plataformas digitais, fintechs, pejotização e fragmentação da categoria. Nesse processo, a maioria dos trabalhadores que permanece nos bancos passou a ser submetida à lógica de venda, cobrança, ameaça, comissionamento, PLR, PPR e medo permanente da demissão ou do descomissionamento.
Para ele, as metas funcionam como um mecanismo de ameaça, cooptação e individualização. Em vez de fortalecer a identidade coletiva da categoria, esse modelo estimula a competição interna e distancia os trabalhadores da luta sindical.
“O adoecimento só aumenta, ano após ano, em virtude desse modelo de contratação e de organização do trabalho”, afirmou.
Ao final, Fabrício defendeu que o fim das metas seja incorporado como eixo estratégico das negociações e da mobilização. “Que o fim das metas norteie nossas táticas negociais e nossa luta para dentro e para fora da categoria”, concluiu.
Estatização do sistema financeiro com controle social
A defesa da estatização do sistema financeiro com controle social foi apresentada por Mané Gabeira, Manoel Elidio Rosa, dirigente do SEEB/SP, da Contraf-CUT e da Intersindical.
Em sua fala, Gabeira relacionou a luta dos bancários a uma disputa mais ampla sobre juros, orçamento público, endividamento das famílias e desenvolvimento nacional. Ele lembrou mobilizações realizadas em frente ao Banco Central pela redução da taxa de juros e criticou a política que transfere grande volume de recursos públicos e da renda das famílias para o sistema financeiro.
“Nós precisamos mudar o sistema financeiro, porque a gente fica enxugando gelo. Nunca tem recurso, porque todo recurso vai para o sistema financeiro”, afirmou.
Para Gabeira, não basta discutir apenas a campanha salarial de forma isolada. É necessário enfrentar a estrutura de poder dos bancos e o peso do rentismo sobre a economia brasileira. Ele afirmou que o endividamento das famílias, os juros pagos pelo governo, a sonegação e as isenções fiscais drenam recursos que poderiam ser usados para saúde, educação, infraestrutura, geração de empregos e reindustrialização.
“Esse sistema financeiro segura o povo brasileiro e trava a nossa reindustrialização”, disse.
O dirigente também criticou a autonomia do Banco Central e defendeu a retomada do controle democrático sobre o sistema financeiro. Essa posição dialoga com uma das resoluções aprovadas na Conferência Nacional, contrária à PEC 65/2023 e à independência do Banco Central, por afastar a instituição do controle democrático e priorizar interesses do setor financeiro em detrimento do desenvolvimento social.
Ao concluir sua intervenção, Gabeira defendeu que a categoria tenha coragem de apresentar uma alternativa estratégica ao país.
“Temos que ter sonho e coragem política para defender a estatização do sistema financeiro”, afirmou.
Para a Bancários na Luta e a Intersindical, essa defesa parte da compreensão de que o sistema financeiro, como está organizado hoje, trava qualquer projeto de desenvolvimento com justiça social. Na avaliação da Central, a riqueza produzida pelo trabalho é apropriada pelo rentismo em benefício de poucos, enquanto trabalhadores, usuários dos bancos e a população em geral sofrem com juros altos, endividamento, fechamento de agências e precarização do atendimento.
Bancários, democracia e luta política
As intervenções da Intersindical na Conferência reforçaram que a campanha da categoria está ligada à defesa da democracia, da soberania nacional e da justiça social. Essa posição apareceu tanto na contribuição de Nilza Pereira de Almeida, que destacou a importância de eleger representantes comprometidos com a classe trabalhadora.
Nesse sentido, a Intersindical defende a eleição de parlamentares comprometidos com o povo trabalhador e a reeleição do presidente Lula, como parte da luta contra retrocessos. É preciso impedir a volta de políticas que aprofundaram a fome, o desemprego, a precarização e as “filas do osso”, símbolo da degradação social vivida pelo país nos últimos anos.
A 28ª Conferência Nacional dos Bancários encerrou seus trabalhos apontando uma campanha marcada por disputas salariais, políticas e sociais. A pauta aprovada nacionalmente será levada à Fenaban, mas as intervenções da Intersindical mostraram que parte da categoria defende uma campanha mais ousada, capaz de enfrentar não apenas perdas salariais, mas também a lógica de funcionamento dos bancos.
Para os Bancários na Luta, a valorização dos bancários e bancárias exige aumento real de 10%, PLR linear, fim das metas, defesa do emprego, combate ao fechamento de agências, melhores condições de trabalho, enfrentamento ao adoecimento e debate sobre a estatização do sistema financeiro com controle social.
Mais do que uma campanha por reajuste, a Intersindical defende uma campanha para questionar quem se apropria da riqueza produzida pela categoria e qual deve ser o papel do sistema financeiro no Brasil. Em um país em que os bancos lucram cada vez mais enquanto trabalhadores adoecem, agências fecham e a população se endivida, a disputa colocada é também sobre democracia, soberania e justiça social.

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