Lei de Cotas completa 35 anos, mas pessoas com deficiência ainda ocupam apenas 1,27% dos empregos formais

Levantamento do DIEESE revela que mais de 413 mil vagas deixaram de ser preenchidas em 2025 e reforça a necessidade de fiscalização e fortalecimento da inclusão no mercado de trabalho
A Lei de Cotas para Pessoas com Deficiência (Lei nº 8.213/1991) completa 35 anos neste 24 de julho. Considerada uma das principais conquistas na luta pela inclusão no mercado de trabalho, a legislação ainda enfrenta grandes desafios para ser efetivamente cumprida.
Levantamento especial divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), com base nos dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2025, do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), mostra que apenas 1,27% dos empregos formais no Brasil eram ocupados por pessoas com deficiência (PcD).
Os números evidenciam que milhares de trabalhadores e trabalhadoras continuam excluídos do mercado de trabalho, apesar da obrigação legal de contratação pelas empresas.
Mais de 413 mil vagas deveriam estar ocupadas por PcD
A Lei de Cotas determina que empresas com 100 ou mais empregados reservem entre 2% e 5% de seus postos de trabalho para pessoas com deficiência ou beneficiários reabilitados da Previdência Social. O percentual varia de acordo com o número de trabalhadores da empresa.
Entretanto, em 2025, o país ainda estava muito distante do cumprimento integral da legislação. Segundo o levantamento do DIEESE, faltavam:
37.564 vagas em empresas com 100 a 200 empregados;
49.912 vagas em empresas com 201 a 500 empregados;
49.053 vagas em empresas com 501 a 1.000 empregados;
276.572 vagas em empresas com mais de 1.000 empregados.
Ao todo, eram 413.101 postos de trabalho que deveriam estar ocupados por pessoas com deficiência.
O maior déficit está justamente nas grandes empresas, que concentram a maior parte dos empregos formais e têm maior capacidade para promover ambientes acessíveis e inclusivos.
Apenas 23% das empresas cumprem a Lei de Cotas
Outro dado preocupante apresentado pelo DIEESE é que somente 23% das empresas obrigadas pela legislação cumpriam integralmente os percentuais de contratação em 2025.
Na prática, isso significa que menos de uma em cada quatro empresas respeitava a Lei de Cotas.
Para o movimento sindical, os números demonstram que ainda há resistência de parte do empresariado em promover uma inclusão efetiva, tornando indispensável o fortalecimento da fiscalização pelos órgãos públicos e da atuação das entidades representativas dos trabalhadores.
Convenção dos Bancários amplia direitos das pessoas com deficiência
No setor bancário, além da legislação nacional, a Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) assegura direitos específicos voltados à promoção da igualdade de oportunidades para trabalhadores e trabalhadoras com deficiência.
Para o dirigente do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região (SEEB-SP) e integrante do coletivo Bancários na Luta, Luiz Carlos Costa, a negociação coletiva tem papel fundamental para garantir condições dignas de trabalho e ampliar direitos.
"A Convenção Coletiva dos Bancários tem cláusulas específicas sobre a igualdade de oportunidades para trabalhadores com deficiência. Entre elas está a previsão de abono de ausência quando o empregado precisar realizar manutenção ou conserto de equipamentos e tecnologias assistivas, como cadeiras de rodas, órteses e próteses, assegurando condições para o exercício de suas atividades profissionais."
Segundo Luiz Carlos Costa, a experiência da categoria bancária demonstra que a inclusão vai além da contratação.
"A negociação coletiva é fundamental para transformar a inclusão em uma realidade concreta. Não basta cumprir a cota. É preciso garantir acessibilidade, respeito, condições adequadas de trabalho e oportunidades de crescimento profissional para que trabalhadores e trabalhadoras com deficiência possam exercer plenamente seus direitos."
Inclusão ainda não chega aos cargos de liderança
O estudo do DIEESE também mostra que, entre as pessoas com deficiência empregadas formalmente, 41% possuem deficiência física.
Outro dado chama a atenção: apenas uma em cada 29 pessoas com deficiência ocupava cargo de direção ou gerência.
A baixa presença em posições de liderança evidencia que as barreiras enfrentadas por esse grupo não terminam no acesso ao emprego. As dificuldades também aparecem na qualificação, na promoção profissional e nas oportunidades de ascensão dentro das empresas.
Inclusão exige compromisso permanente
Para o Bancários na Luta, o aniversário de 35 anos da Lei de Cotas representa um momento importante para reafirmar que a inclusão das pessoas com deficiência deve ser tratada como um direito, e não como uma concessão das empresas.
Além da contratação, é fundamental garantir ambientes acessíveis, tecnologias assistivas, combate ao capacitismo, igualdade de oportunidades, remuneração justa e respeito à diversidade.
No sistema financeiro, os sindicatos seguem desempenhando papel essencial na fiscalização do cumprimento da legislação e na ampliação de direitos por meio da negociação coletiva.
Os dados do DIEESE demonstram que ainda há um longo caminho para que a inclusão das pessoas com deficiência aconteça de forma efetiva no mercado de trabalho brasileiro. Fortalecer a Lei de Cotas, ampliar a fiscalização e valorizar as conquistas garantidas pelas convenções coletivas são passos fundamentais para construir um ambiente de trabalho mais justo, diverso e democrático.

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